Perdidos. Lembram-se da famosa série, certo? Aquela em que por algum motivo que até os argumentistas desconhecem um grupo de indivíduos é vítima de um acidente de aviação, ficando retidos numa ilha, onde acontece toda uma panóplia de acontecimentos estranhos, demasiado alternativos, dignos de um X-File tirado do fundo de uma prateleira perdida algures numa cave poeirenta. Pois é, meus caros, hoje fui um Perdido, pelo menos durante algumas horas. "Isto porquê?", questionam-me vocês; mas não deviam, pois para obter resposta a esta simples dúvida, quiçá existencial, implica a leitura do restante texto. E poderá tornar-se perigosamente enfadonho. Enfim... Ia eu alegremente para mais um dia de surf, quando resolvo ir experimentar um sítio ao qual nunca tinha ido, selvagem, secreto para a maioria até dos locais. Após um telefonema de elucucidação, lá me dirigi, deixando o carro num caminho de terra, e infiltrando-me por um caminho de vacas, presenteado com bosta, prosseguindo por meio de pastos, canas, mais pastos com relva até à cintura, alguns cães a correrem atrás de mim, rochas à beira-mar, e, finalmente, o dito local (spot, em linguagem surfista). As ondas de 2 metros que se erguiam na minha frente cedo justificaram a longa caminhada, assim como a água quente e o sol abrasador. Ao fim de uma boa surfada, resolvo sair da água. Junto os meus trapinhos para me ir embora, e qual não é o meu espanto (e das restantes cerca de 15 pessoas que se encontravam no mesmo local) que a maré enchera de tal modo que inundou o dito calhau (rochas), impossibilitando a passagem, num local com um pequeno areal e sem nada que se parecesse com obra da mão humana. Ora, restava-nos esperar pela maré vazia, para que Neptuno nos permitisse novamente passagem de volta ao mundo. 6 horas de longa espera nos aguardavam. Construímos pequenos abrigos a partir de canas, toalhas de praia e folhas de inhame que por lá crescia, para nos proteger do sol abrasador. Fizemos uma fogueira. Folia total no nosso isolamento do mundo. Pequeno problema: estávamos completamente desprovidos de mantimentos; pensámos em sacrificar alguém, mas esperámos que a fome aumentasse mais um pouco para o fazer, e ao menos tínhamos água salgada à mão, que serviria para lavar e simultaneamente temperar a carne. Um pitéu? Muitos canibais diriam que sim! Finalmente, tudo se resolveu a bem, o mar bravo concedeu-nos novamente passagem para o regresso. Assim se vai passando o tempo por terras atlânticas.
Agora termino com uma questão importantíssima, que já nos deve ter assolado a todos pela sua complexidade: o avião dos tipos dos Perdidos supostamente ia cheio de passageiros, certo? E supostamente, eles caíram numa ilha deserta, verdade? Então, de onde apareceram os homens com câmaras que permitem que vejamos as suas desventuras no conforto do nosso sofá? E como fazem eles chegar as imagens ao mundo civilizado, se estão numa ilha deserta, isolados de qualquer tipo de comunicação? Muito, muito estranho... Eu pelo menos tinha rede no telemóvel, mas certamente não havia por lá homens com câmaras! Caso para se pensar. Ou não.
Assim termino mais uma (longa) estória das aventuras vividas algures entre a Europa e a América.
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