Tudo terá começado há muitos anos atrás, não sei exactamente quando... decerto quando, em algum dia remoto, adormeci pela primeira vez numa aula. Desde então tornou-se uma rotina, quase um culto; desenvolvidas várias técnicas para dormir sestas de tempo e profundidade variável nos mais diversos locais sem ser notada, ainda assim fui apanhada em algumas ocasiões. Uma delas, talvez a mais escandalosa, aconteceu há uns anos numa aula de Biologia Animal II. Após as várias tentativas da minha colega para me acordar enquanto o nosso professor discursava entusiasticamente sobre batráquios (a sua especialidade), duas horas passadas, não resisti mais... adormeci! Aparentemente as minhas técnicas de camuflagem não eram infalíveis, dado que o senhor, chocado, disse, alto e bom som: "Você está a dormir? Está mesmo a dormir?! Vá lavar a cara! Faça qualquer coisa!". Mas sabia ele (tanto como eu) que, além de desequilíbrios diversos, padeço também de uma patologia denominada narcolepsia! Se tivesse acontecido hoje teria, subtilmente, perscrutado a minha mala em busca da declaração médica que obtive ontem precisamente, e que afirma que padeço da dita doença, justificando a minha necessidade de dormir sestas ocasionais. Pergunto-me qual teria sido a sua resposta... nada de previsível, certamente, dado que estou a falar do senhor que cantarolava alegremente a música do Indiana Jones enquanto, munidos de luvas e coragem, dissecávamos até aos otólitos peixes nas suas aulas.
A declaração foi a segunda medida preventiva a que recorreu o bom doutor; a primeira consistiu na administração de uma droga (legal) que introduziu com as palavras seguintes: "Não é uma anfetamina, mas vai ajudar a mantê-la acordada!". Fiquei animadíssima, claro! Volto brevemente com relatos dos seus efeitos, acerca dos quais tenho expectativas extraordinárias.
Até nova ocasião iremos, com certeza, encontrar-nos nos locais habituais... eventualmente atrás de um papel no qual figurarão, com letras garrafais, as palavras "Silêncio: HORA DA SESTA!".
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